Orador da Turma XXIV de Medicina da UERN
Saudações a todos! Como vocês sabem, eu tive a honra de ser o orador da Turma XXIV de Medicina da UERN, e, hoje, venho compartilhar um vídeo gravado na frente da FACS/UERN, já que a colação de grau não foi gravada.
Você pode conferir o discurso completo no Instagram ou YouTube e o texto na íntegra a seguir.
Meus caros colegas, autoridades presentes e convidados, saudações a todos.
Inicialmente, gostaria começar esse discurso pelo começo. Se nós fecharmos os olhos por um instante e tentarmos lembrar de como tudo começou, a imagem que nos vem à mente é um tanto peculiar. Nós fomos a turma que começou a se tornar médica atrás de telas de computador, no silêncio e no isolamento de uma pandemia. Eu me lembro perfeitamente das nossas primeiras aulas de Histologia com o professor Edvan quando ele nos pediu para colocarmos uma foto do nosso rosto na conta do Google. Ele dizia que precisava daquelas fotos para que, ao receber nossos e-mails, conseguisse ter ao menos uma mínima ideia de quem éramos. Ele não queria dar aula para ícones com letras iniciais; ele queria nos enxergar de alguma forma.
Outro ponto marcante dessa época de distanciamento social eram os sempre presentes “Momentos Culturais” do professor Álvaro Marcos Pereira Lima (que dá nome à nossa turma), que, de uma maneira inexplicável, conseguia unir o conteúdo técnico da aula com poesia. Esses breves momentos eram um respiro em meio à toda insegurança da pandemia e conseguiam, de forma lúdica, trazer um pouco de conforto em meio às incertezas daquela época. Esses momentos nos marcaram e marcaram ele também, porque jamais vou esquecer que, no primeiro dia de aula de Farmacologia Básica, já na modalidade presencial, ele chamou cada um de nós pelo nome, como se a estratégia de Edvan de pedir as fotos nos e-mails tivesse tido resposta e Álvaro tivesse decorado o rosto de cada um ainda no meio da pandemia.
Porém, a nossa jornada não começou nesse cenário de pandemia, ela iniciou bem antes. Muitas vezes, quando as pessoas de fora nos perguntam quanto tempo dura o curso, nós respondemos que são seis anos. Mas, no fundo, nós sabemos que essa resposta é uma ilusão. A nossa formação não durou apenas seis anos. Foram muitos mais.
Para a maioria de nós, esse sonho começou a ser gestado ainda na infância, no desejo inocente de brincar de médico ou no olhar de admiração por alguém da família ou alguém que cuidou da gente. E para pessoas que, como eu, vêm de uma origem humilde, esse sonho sempre foi um horizonte quase inalcançável, algo que insistiam em dizer que não era para nós. Desde muito cedo, precisamos provar que éramos capazes: no ensino fundamental e no ensino médio, nos destacando e estudando o dobro. E depois vieram os anos silenciosos e dolorosos de cursinho. Teve quem passou de primeira, mas muitos aqui enfrentaram um, dois, três ou mais anos de preparação exaustiva para o ENEM. Como olhar para um colega que viveu tudo isso e dizer que a faculdade durou apenas seis anos? Para muitos de nós, foram nove, dez anos ou uma vida inteira investida antes mesmo de tocarmos no primeiro paciente.
Mas nós conseguimos. E, se eu e vários dos meus colegas conseguimos, muito se deve à instituição que nos acolheu. E quando falamos com orgulho do lugar onde nos formamos, é preciso fazer justiça à sua história. Muitas vezes, vejo colegas escreverem erroneamente que são médicos pela “Universidade Estadual do Rio Grande do Norte”. Meus amigos, nós passamos seis anos aqui. Temos a obrigação de honrar e de reafirmar o nome correto da nossa casa: Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.
A UERN não é apenas um prédio estadual qualquer. Ela é a universidade do povo potiguar. Ela é o primeiro curso de Medicina do interior do estado, carregando em suas paredes uma história de resistência que se confunde com a própria história de luta do nosso povo. Reafirmar que ela é a Universidade “do Estado” é reconhecer o valor imenso da interiorização e o fato de que, pelas portas abertas do ENEM e do SISU, ela permitiu que pessoas de todos os cantos do Brasil se encontrassem aqui.
Essa universidade nos moldou através da resiliência. Enfrentamos dificuldades estruturais, desafios de horários e limitações de campos de estágio. Mas nós lutamos. E, com o que tínhamos, fizemos uma formação de excelência porque entendemos, desde cedo, que o aluno da UERN é o protagonista absoluto do seu próprio aprendizado. Nossa qualidade dependeu da nossa entrega. E essa força de vontade nos conecta diretamente ao lema da nossa universidade: “Liber vi spiritus”, que significa “Liberdade pela força do espírito”. A força do nosso espírito foi o que nos garantiu a liberdade acadêmica e, hoje, a profissional.
Mas para compreender a beleza desse desabrochar no nosso semiárido, eu gosto de pedir emprestado o lema da nossa instituição vizinha, a UFERSA, que diz: “Per sciencia aridam terram floret”, que significa que “Pela ciência, a terra árida floresce”. E floresceu. Vejam bem os frutos que essa terra produziu. Pela ciência e pela oportunidade que a UERN nos deu, a terra árida floresceu e gerou médicos como eu, João Lucas, Lara, Carol, Thiago, Renata, Andreina, e Liliany… filhos de Mossoró que hoje florescem para cuidar da comunidade de Mossoró, do Rio Grande do Norte e do Brasil, retornando para a sociedade como frutos da UERN.
E falar sobre florescer na nossa terra nos faz pensar no privilégio que alguns de nós tiveram. Enquanto muitos colegas precisaram cruzar fronteiras e enfrentar a solidão de morar longe logo cedo, a UERN permitiu que parte de nós fizesse essa caminhada sem sair debaixo das asas dos nossos pais, desfrutando do calor de casa.
Isso me lembra de um relato de um professor meu no IFRN. Ele contava que, quando foi morar sozinho para estudar, sua mãe teve que lhe ensinar a cozinhar feijão pelo telefone. Ao sentar-se na frente da televisão para comer seu primeiro prato de feijão puro à noite, ele percebeu que o sal daquela comida eram as lágrimas da saudade, da tristeza pela distância e do medo do desconhecido.
E eu pergunto a cada um de vocês, meus colegas de turma: qual foi o seu momento “prato de feijão”? Qual foi o tempero da sua saudade? Onde você estava quando essa dor bateu no peito pela primeira vez? Tenho certeza de que você se lembra do dia exato e que se pensar demais nele, consegue sentir o exato sentimento de solidão. Porém, ânimo! Olhe para o lado agora e veja que aquela pessoa que você tanto queria naquela hora está aqui ao seu lado para celebrar essa conquista. Infelizmente, aquele sacrifício e aquela dor foram necessários para a vitória e a felicidade de hoje.
A medicina nos impõe essa distância. Ela nos afasta de quem amamos e, muitas vezes, nos impede de dar o último adeus. Eu trago essa ferida na pele e sei que vocês também. Essa é a face mais dolorosa do preço que pagamos. Por isso, ao olharmos para esta plateia hoje, nosso coração se aperta pelas ausências. Dedicamos esta conquista também àqueles que foram nossos pais de sangue ou de coração, que nos incentivaram a vida toda, mas que hoje não puderam estar fisicamente aqui para nos ver vencer, mas eles estão presentes em cada batida do nosso coração.
Aos nossos professores, que foram os verdadeiros guias nessa transição dolorosa, mas infinitamente bela, de estudantes a médicos, o nosso mais profundo respeito. Lembro-me do professor Dix-Sept nos ensinando algo tão essencial e que muitas vezes se perde na correria: a importância de se portar como médico, de se vestir adequadamente, de cumprimentar as pessoas e de dar um “bom dia” sincero ao entrar no consultório, porque esse gesto simples pode mudar o dia de um paciente.
E foi no quinto período, em uma aula de cardiologia com o professor Stephan, que a ficha finalmente caiu. Ele olhou para nós e disse: “Vocês precisam se portar como médicos porque vocês são médicos. Para o paciente que vocês atendem no ambulatório, não importa se você é estudante ou interno. Para ele, naquele momento, você é o médico dele.”. Aquela frase mudou profundamente a minha postura e a forma como passei a encarar cada olhar que buscava a minha ajuda e acredito que a de vocês também.
E foi assim que fomos nos tornando médicos. Não em um estalo de dedos no dia de hoje, mas em um processo silencioso feito de pequenas “primeiras vezes”. A primeira anamnese, o primeiro exame físico, a primeira prescrição, a primeira conversa difícil. Eu me lembro do orgulho com que tirei foto do meu primeiro prontuário preenchido. Hoje, escrevo dezenas deles diariamente e não tiro foto de nenhum. Lembro-me de professora Sheila nos incentivando a registrar a imagem da nossa primeira receita médica assinada. São pequenos troféus que revelam a sacralidade do nosso aprendizado.
E é nessa sacralidade que reside a ironia mais bonita da nossa profissão: a de gastar a nossa própria vida para aprender a devolver a vida a alguém.
Quantas noites em claro nós passamos? Quantos carnavais, aniversários e momentos de lazer sacrificamos para ficar até às duas ou três da manhã em chamadas do Google Meet revisando conteúdos de prova? Prejudicamos nossa própria saúde em prol da saúde de pacientes que ainda nem conhecíamos e pessoas que nem sabiam da nossa existência.
Mas a beleza da Medicina está exatamente nessa entrega a um desconhecido. Como no internato, ao vermos um paciente da UTI melhorar sob os nossos cuidados, receber alta e ir para casa sem nunca saber o nome de quem esteve ali lutando por ele. Ou dos bebês na sala de parto quando professora Regina olhava para a gente e perguntava: “Quais são as três perguntas?”. Aquele criança jamais saberá que quem fez os cuidados iniciais nela fomos nós. E jamais saberá mesmo, porque somos internos, e nenhuma mãe coloca o nome do interno que pegou a criança nos registros do nascimento. Ora, se alguns não colocam nem o nome do pediatra, imagine a gente.
A Medicina é uma profissão de amor, de virtude e de paz, mas o nosso oponente diário é a morte. Tudo o que estudamos e fazemos é para tentar adiá-la. Seja no desespero de uma parada cardiorrespiratória, seja no consultório, ajustando minuciosamente a medicação de um paciente hipertenso e diabético para lhe garantir mais seis meses de vida.
E alguém desavisado poderia questionar: “Tanto esforço, tanta cobrança para mudar o estilo de vida e tantas medicações por apenas seis meses de sobrevida?”.
Sim! Seis meses é uma vitória monumental. Em seis meses, aquele paciente pode fazer a viagem que sempre planejou, ver um neto nascer, assistir à formatura de um filho ou viver alegrias que nós sequer conseguimos mensurar. Ele talvez nunca relacione diretamente esses momentos felizes ao médico que, anos antes, passou a madrugada estudando para tomar a decisão terapêutica correta. Mas nós saberemos.
E diante de um cenário em que tanto se fala sobre a saturação do mercado de trabalho e as incertezas do futuro da nossa profissão, eu tenho o meu coração muito tranquilo. Eu conheço a capacidade, o caráter e a força de cada um dos meus colegas da Turma 24. Pode ser difícil dar os primeiros passos no mercado de trabalho, mas eu sei que, uma vez lá dentro, nós nos destacaremos. Carregamos no peito o brasão da FACS, uma faculdade com mais de 20 anos de tradição em Mossoró. Quantas vezes, nos estágios, alguém olhava para o nosso braço e dizia: “Ah, você eu sei que é bom, porque você é da UERN!”? Essa história e esse legado também são nossa responsabilidade a partir de agora.
Agora, eu queria trazer uma reflexão que não é minha: durante a disciplina de Oftalmologia, o professor Edvan compartilhou com a nossa turma um artigo de John Higgins intitulado “10 Traços de Grandes Médicos! E Dicas Para Ajudá-lo a Melhorar”. No décimo ponto, o autor nos ensina sobre “contar estrelas”, fazendo referência à música “Counting Stars”, da banda One Republic, que diz:
Lately, I’ve been
I’ve been losing sleep
Dreaming about the things that we could be
But baby, I’ve been
I’ve been praying hard
Said, no more counting dollars
We’ll be counting stars
Que em uma tradução livre seria algo como:
Ultimamente, eu tenho
Eu tenho perdido o sono
Sonhando com o que poderíamos ser
Mas, amor, eu tenho
Eu tenho rezado muito
Disse: chega de contar dólares
Vamos contar as estrelas
E o autor reflete que, se passarmos a vida inteira correndo atrás apenas de dinheiro e status, a verdadeira essência e a alegria de ser médico escaparão de nós. Mas, se formos guiados pela paixão de aliviar o sofrimento humano, o retorno financeiro e o reconhecimento serão meras consequências. Nós passaremos a nossa existência contando estrelas: as vidas que tocamos, as dores que aliviamos e as almas que ainda estão por cruzar os nossos caminhos.
Meus amigos da Turma 24 de Medicina da UERN, a Medicina nos tirou muito ao longo desta jornada. Nos tirou o sono, o convívio, a presença física e o tempo com quem amamos. Mas, hoje, neste palco, ela finalmente começa a nos devolver. Ela nos devolve o título que tanto buscamos, a maturidade que conquistamos e a oportunidade sagrada de fazer a diferença na vida de alguém.
Que nós nunca nos esqueçamos de onde viemos, do valor da nossa universidade pública e de que fomos nós que corremos atrás para construir essa excelência. E que, daqui para a frente, nós nunca, mas nunca mesmo, deixemos de contar as nossas estrelas.
Muito obrigado.
